Uma boca e dois ouvidos

Texto publicado na edição de 9 de outubro de 2020 do Jornal de Candelária

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Lembro de ouvir, quando era criança, que fomos feitos com dois ouvidos e uma boca, para que possamos ouvir mais do que falar. Até hoje, ouço adultos falando isso para crianças tagarelas, pois a tagarelice é natural da infância e, muitas vezes, perturba os adultos, que sacam do baú da memória essa afirmação.

A verdade é que nós, seres humanos, temos grande necessidade de expressão. Somos seres narrativos, construímos o mundo através de narrativas. A oralidade não é a única forma de expressão, mas é a mais rápida para aqueles que conseguem adquiri-la naturalmente.

Somos eternas crianças em processo de alfabetização. Você já viu uma criança aprendendo a ler? Ela lê tudo em voz alta, rótulo de embalagem de biscoito, placas, outdoors, estampa de roupa. Quando crescemos, queremos falar, expressar o que sentimos e o que pensamos. E, quem fala quer ser ouvido. Mas, se não houver um revezamento entre o tempo da fala e da escuta, quem irá ouvir o que temos a dizer?

Nesse período de pandemia, onde a tecnologia tornou-se grande aliada para aprender, ensinar, trocar receitas e viver a saudade, vejo uma grande oferta de cursos, palestras, lives diárias. Muita gente pra falar e muita gente pra ouvir, no modo “piloto automático”. Mas, em que momento eu e você paramos verdadeiramente para escutar e prestigiar o fazer do outro?

Em que momento paramos para fazer uma pausa, de 5 minutinhos, para escutar uma história, uma canção, um poema, ou para não ouvir nada? Vivemos um tempo de tanta falação que é difícil saber o que, de fato, é informação e o que é invenção. A boca cala, mas o pensamento parece não cessar. Sobrecarregamos nossos sistemas com tanta palavra sem sentido, que perdemos o sentido das palavras.

Não basta calar a boca, é preciso silenciar o pensamento, aquietar o sentimento, dar ouvidos aos amigos e familiares, aos artistas e educadores, aos filósofos e cientistas. Às vezes, é preciso silenciar. Tagarelice não é diálogo, verborragia não é argumento.
Deveríamos ouvir mais, não porque temos dois ouvidos, mas porque valorizamos a escuta. Escutar é um modo de valorizar o outro, de dizer que ele é importante para nós.

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