Tempo de regar memórias

Texto publicado no Jornal de Candelária, no dia 6 de novembro de 2020

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Nesta semana celebramos o Dia de Finados. Minhas memórias de infância deste dia são as melhores. Meu avô materno fazia aniversário no Dia de Finados. Sendo assim, dois de novembro era dia de festa na minha família. Meu avô paterno morreu um ano antes de eu nascer. Minha avó era uma jovem viúva que, religiosamente, nas manhãs do segundo dia do mês de novembro, me levava para visitar o túmulo de meu avô.

Eu amava aquele dia do início ao fim. Muitas pessoas, que já haviam saído da minha cidade natal, para estudar ou trabalhar, voltavam para visitar suas famílias no feriado de dois de novembro. As manhãs de Finados no cemitério da cidade eram um grande encontro entre amigos, que se abraçavam e riam, lembrando histórias do passado.

Minhas memórias deste dia me remetem às brincadeiras de pega-pega e esconde-esconde entre os túmulos. Brincava com outras crianças, ouvia as histórias dos adultos e me encantava com aquela infinidade de flores coloridas que embelezavam o lugar. Sendo assim, Finados, para a criança que fui, era sempre dia de alegria e brincadeira.

No Brasil, os adultos celebram o Dia de Finados visitando os túmulos de seus familiares e entes queridos, para rezar e enfeitá-los com flores. Em outros países, porém, existem outros costumes. No México, por exemplo, as pessoas celebram este dia de maneira bem mais festiva. As celebrações duram três dias e é costume enfeitar as ruas e as casas.

Segundo a crença popular mexicana, nos Dias dos Mortos, os que já partiram têm permissão divina para visitar seus parentes e amigos. Por esta razão é que, além de enfeitar suas casas, organizando altares decorados com flores, caveiras de papel machê, retratos de seus mortos, velas e incensos, as pessoas também preparam as comidas preferidas dos que já partiram. Faz parte dessa crença acreditar que só morrem aqueles que não são lembrados.

Pessoalmente, sou simpática aos festejos mexicanos. No Brasil a morte ainda é um tabu. Evitamos de falar sobre ela, especialmente com as crianças. Como se, não falando sobre a morte, fôssemos evitar sua chegada. Morrer faz parte da vida, é o fim para alguns, uma passagem para outros, mas inevitável para todos nós.

Percebo com muita beleza a ideia dos mexicanos de festejar de modo tão animado a memória de seus ancestrais. A saudade não precisa ser um sentimento carregado de dor, deveria ser o lugar onde habitam as boas memórias. Nossos sentimentos não findam com o corpo de quem partiu, nossas lembranças também não. Mas, a memória, de algo ou alguém, só sobrevive quando é regada de tempos em tempos.

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