Somos as memórias que temos

Texto publicado no Jornal de Candelária do dia 9 de abril de 2021

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Diz o poeta, que memória é onde a gente guarda quem a gente ama. O cientista, por sua vez, diz que somos as memórias que temos. Quem amamos, por certo, reside em nossas memórias. Quem desprezamos também. Sabemos quem somos e onde estamos, porque guardamos muitos registros. Somos filhos, netos, bisnetos de pessoas concretas. As falas, posicionamentos, escolhas e as histórias de nossos familiares, amigos, colegas de escola, ou de trabalho, se entrelaçam com nossas memórias, fazem parte delas, apontam os rumos para onde queremos ir e sinaliza os caminhos que devemos, ou queremos, evitar.

Nossas memórias assinalam quem somos no mundo. Quando nos apresentamos para uma pessoa, ou para um grupo de pessoas, dizemos nosso nome, de onde somos, onde moramos, nossas experiências profissionais, acadêmicas ou pessoais. Se somos capazes de narrar todas essas informações é porque às temos registradas em nossas lembranças.

Uma pessoa acometida pela Doença de Alzheimer vai, aos poucos, perdendo suas memórias, podendo chegar ao ponto de não ser mais capaz de localizar-se no mundo, de reconhecer seus amigos e familiares, ou até mesmo, de reconhecer-se. Este fato afirma a fala do cientista. Uma criança pequena, por sua vez, também não é capaz de narrar sobre quem é. A construção dessa narrativa acontecerá a partir das muitas vezes que os adultos que cuidam dela precisarão repetir seu nome, seus nomes, nominando e dando significado a tudo e a todos que a cercam. Aqui o poeta e a poesia do viver se fazem presentes.

Para que a memória exista é preciso que os fatos, as coisas, as pessoas, sejam nominados e rememorados muitas vezes. É preciso que ganhem sentido, que sejam sentidos. Não guardamos na memória todas as experiências vividas, nem todas as pessoas conhecidas, mas guardamos tudo aquilo e todos aqueles que fazem e dão sentido à nossa existência.

Esquecer quem somos no mundo não é saudável, é uma condição de quem não soube aprender ou está doente. Deixar apagar a memória do tempo vivido não é saudável, é coisa de quem não quer aprender ou está doente. Que toda a história já vivida sustente nossas memórias. Que cada vida ceifada por descuido, descaso ou negligência, possa ser lembrada não como um número, mas como um pedacinho da nossa memória coletiva. Que todo o tempo e toda experiência partilhados possa nos fortalecer e nos qualificar enquanto seres mais humanos.

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